Como tudo começou: um diálogo com Marcelo Renan, fundador do Projeto Chelonia mydas
- Camila Miguel

- há 8 horas
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Como aconteceu o seu primeiro contato prático com a saúde das tartarugas marinhas, já que sua base era na patologia clínica de animais convencionais?
Um dia eu estava no Laboratório Marcos Daniel, fazendo exames e me aparece a Cecília Baptistote, referência em tartarugas marinhas do Brasil, com uns tubos de sangue. Ela me perguntou se eu fazia exames e eu sem nunca ter feito nada com tartarugas marinhas, respondi que sim.

Marcelo, o que te levou a escolher as tartarugas marinhas como objeto de estudo e qual era o cenário da pesquisa nessa área quando você começou?
A maior motivação foi o encantamento com as tartarugas e a vida marinha, e a curiosidade científica de poder aplicar meus conhecimentos de patologia clínica em um grupo de espécies pouquíssimo estudado à época. Fui o pioneiro no estudo da hematologia das tartarugas no Espírito Santo e um dos primeiros no Brasil. E o grande desafio motivador foi a ameaça que a fibropapilomatose representa para as tartarugas marinhas, uma doença até então cheia de lacunas e que até hoje a ciência tem tentado entender, especialmente suas relações com a saúde ambiental.
Como foram os seus primeiros passos práticos nesse campo e em que momento essa trajetória teve início oficialmente?
Era o ano 2000, quando pela primeira vez fui coletar sangue de tartarugas com minha amiga Cecília Baptistote no Tamar de Regência. Me encantei pelos bichos, pela possibilidade de trabalhar no ambiente marinho e contribuir de alguma forma para a conservação das tartarugas.

Para que possamos compreender a escala do projeto, quais foram as principais localidades percorridas para a coleta de dados e amostras ao longo desses anos?
De cima pra baixo: Atol das Rocas, Fernando de Noronha, Parque Marinho dos Abrolhos, ilha de Coroa Vermelha, Foz do Rio doce (Regência e Povoação), APA Costa das Algas (Santa Cruz), Vitória, Ilha da Trindade, Anchieta.

Olhando para os seus primeiros registros e publicações, como você descreveria os resultados iniciais e de que maneira eles moldaram o que o projeto viria a se tornar?
O primeiro artigo que publiquei foi sobre os valores de normalidade de tartaruga-de-pente de Fernando de Noronha. Ainda uma pesquisa exploratória, que depois foi se consolidando como uma ferramenta de monitoramento da saúde das tartarugas, e reflexos no monitoramento ambiental. Isso foi em 2003. Os trabalhos de campo foram magníficos, mergulhando e coletando sangue das tartarugas junto com Cecília e Alice Grossman, e minha ainda estagiária à época Larissa Santos Ferreira.

A conservação é um esforço coletivo. Quais foram as pessoas e instituições que desempenharam papéis fundamentais para a continuidade e viabilidade do projeto?
Fazer uma lista de pessoas é complicado, mas vamos lá. Meus primeiros estagiários foram Marcio Gianordoli Teixeira Gomes e Larissa Santos Ferreira. Marcio foi comigo para a Ilha de Trindade, Larissa pra Noronha. Nesse tempo eu trabalhava junto com pessoas do Tamar de Vitória (Cecília, Bruno Coelho e Evelise Torezani), depois veio o Marcus Vinícius Vilaça, que foi comigo na primeira viagem ao Atol das Rocas. Depois veio Uirandê Gonçalves Bussoti e Lauana Schneider Fadini, depois Leandro Abreu da Fonseca, estagiários da UVV. Uirandê fez uma temporada no Atol. Depois de Leandro acho que já foi Yhuri Cardoso Nóbrega (Abrolhos) e hoje presidente do IMD. Yhuri foi quem ficou mais tempo (até hoje), Ainda teve o Paulo Roberto de Jesus Filho (Marrom), Felipe Buloto, Victor Natural, alguns alunos de TCC (Caroline Jorge, Janine Forattini, Carolina Schuwartz, Thais Mantovani, Noely Pianca, entre outros), e a partir de 2017, chegou a Camila Miguel, que revolucionou o Chelonia com uma capacidade notável, que se tornou a minha sucessora na coordenação do Projeto Chelonia mydas.
Sempre tive apoio do Projeto TAMAR através de Cecília Baptistote, que me enviava nas aventuras para os lugares mais longínquos e fantásticos, a Universidade de Vila Velha (UVV) onde fazia os experimentos e necropsias de mais de 500 tartarugas, o Laboratório Marcos Daniel (minha família) que bancou milhares de análises bioquímicas ao longo de 15 anos de estudos, a recentemente a FEST/UFES e o PMBA. Todos os estudos que fiz ao longo desse tempo todo até 2019 foram bancados por mim mesmo com o apoio dessas instituições. A partir de 2019, recebemos o financiamento da RENOVA via FEST. Faltou falar dos meus orientadores que acreditaram desconfiando, mas que foram um apoio imprescindível para meu aprendizado (Agnaldo Martins- UFES, Paulo Dias Ferreira Júnior e Carlos Eduardo Tadokoro- UVV).

Quais foram os desafios mais marcantes que você encontrou nesse caminho e, hoje, o que você considera o maior retorno ou benefício gerado por todo esse trabalho?
O maior desafio desde o início foi o pioneirismo, pois isso me colocava só e totalmente autodidata, desde aprender a contar as células sanguíneas, interpretar a bioquímica, correlacionar com as questões ambientais. Esse foi o maior desafio e ao mesmo tempo o impulsionador da busca por conhecimento.
O maior benefício do projeto, além do que ele representa para a ciência e conservação das tartarugas, sem dúvida foi poder compartilhar o conhecimento que adquiri com um monte de estudantes e estagiários, que hoje são profissionais que me enchem de orgulho e a sensação de dever cumprido como professor universitário e cientista.

Ao analisar a história do projeto, como você percebe as diferentes fases de crescimento dele e houve algum momento em que você sentiu que ele alcançou um novo patamar de efetividade?
O projeto sempre deu certo de acordo com o tempo e condições em que as coisas aconteciam, mas sem dúvida após a chegada de Camila Miguel as coisas tomaram outro rumo com um salto na efetividade e na qualidade científica, afinal nada como ter alguém dedicado totalmente ao projeto.

Depois de tantos anos dedicados ao estudo e à preservação desses animais, qual é a principal mensagem que você espera deixar para a próxima geração de biólogos e conservacionistas?
Na conservação a mensagem sempre será de persistência e otimismo. Mesmo que as ondas estejam fortes e que a remada seja contra a maré, não podemos desistir. Cansamos, mas não esmorecemos, ficamos tristes às vezes, mas não desanimados, encontramos satisfação em um filhote nascendo, no encontro com uma tartaruga saudável no mergulho, na força das fêmeas em desova e seguimos em frente, mesmo se isso significa deixar o conforto, a família e os amigos por um tempo, mas persistimos.




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