Como a luz que nos ilumina pode afetar borboletas e mariposas?

Pelo menos uma vez na vida você já deve ter se deparado com insetos voando ao redor de alguma luz da sua casa, principalmente à noite.


Que insetos são atraídos pela luz todos sabem, mas você já se perguntou por que isso acontece? Será que isso tem algum impacto na nossa vida e na vida desses insetos?


Para começar, é importante entender que com o avanço das tecnologias e o aumento da antropização, a espécie humana com seus hábitos majoritariamente diurnos sentiu a necessidade de estender o período de atividade, dando início a introdução das luzes artificiais no seu dia-a-dia. O que atualmente configura-se como um item essencial para a manutenção do modo de vida do homem moderno.


Com isso, termos como Luz Antropogênica e Poluição Luminosa surgiram, visto que cada vez mais nós, humanos, necessitamos dessa iluminação artificial. Mas o que significam esses termos?


A Luz Antropogênica é aquela criada por nós, de modo artificial, com o objetivo de iluminar períodos do cotidiano, em especial à noite. Já somos beneficiados pelas iluminações naturais vindas de corpos-celestes, como o Sol. À noite também há iluminação natural vinda da Lua e das estrelas, mas com o decorrer dos avanços da nossa espécie, essas luzes naturais não foram o suficiente e a luz artificial foi inventada.


Luzes artificiais foram e são tão utilizadas ao ponto de provocar a “Poluição Luminosa”. Este termo nada mais é do que excesso de luz artificial em locais onde não são necessárias, ultrapassando os níveis de intensidade adequados ao ponto de alcançar para além das áreas destinadas.


O ambiente noturno está cada vez mais iluminado e há evidências de que o excesso dessas luzes afeta os humanos e também há consequências para os ecossistemas.


Estudos apontam que as luzes artificiais vêm interrompendo ciclos de vida de muitos animais, principalmente após o século XX. As espécies de hábitos noturnos e crepusculares (início da noite) são as mais vulneráveis. Seja pela intensidade ou espectro, essa luz influencia significativamente no comportamento desses animais, como na comunicação, forrageamento¹, reprodução ou até mesmo a regulação dos ciclos diários, como horário de descansar e acordar.


Tais consequências não interferem só os invertebrados, como os insetos, mas também animais vertebrados e um exemplo bem claro são das tartarugas marinhas, onde a poluição luminosa acaba confundindo e desorientando os filhotes recém-nascidos, que ao invés de seguirem para o mar, seguem em direção ao continente por ser mais iluminado (para mais informações sobre a influência das luzes artificiais nas tartarugas marinhas, recomendamos o texto elaborado pelo Projeto Chelonia mydas: <https://es360.com.br/iluminacao-artificial-a-luz-que-direciona-e-tambem-desorienta/>).


Para se ter uma noção quantitativa, os invertebrados são os animais mais abundantes em termos de número de espécies do Planeta e mais de 60% têm hábito noturno. Os resultados são similares para Lepidoptera, grupo das borboletas e mariposas, do qual 75 a 85% de todas as 160 mil espécies conhecidas também têm hábitos noturnos. Ou seja, as borboletas e mariposas estão expostas e são amplamente afetadas pelas luzes artificiais direta e indiretamente.


Mas qual o impacto disso?


Apesar de até o momento não existir uma resposta exata, há várias hipóteses de que esses animais, inclusive os lepidópteros, desenvolveram estratégias para se localizarem através da luz (seja ela da lua ou as estrelas, por exemplo), um método chamado de orientação transversal. Ou seja, eles utilizam a luz como guia para encontrar alimentos, parceiros ou fugir de predadores.


E por que a Poluição Luminosa seria perigosa?


Instintivamente insetos de hábito noturno seguem a luz da lua e das estrelas, mas isso não leva em consideração as luzes artificiais. Pois, dependendo das condições ambientais, a luz artificial pode alcançar níveis mais brilhantes do que a própria lua, ou pior, podem mascarar informações dos corpos-celestes usadas para orientação.


O ruim é que para esses animais, uma lâmpada é como se fosse a própria lua, confundindo-os. Ao ter os seus sentidos afetados, isso provoca uma atração irresistível à fontes luminosas artificiais, fazendo com que eles permaneçam em movimento constante em torno destas luzes.

Insetos voando ao redor de uma lâmpada. Fonte: Reprodução.


E quais as consequências disso?


A atração promovida pela Poluição Luminosa pode provocar uma série de efeitos como: o aumento da taxa de mortalidade, seja pela suscetibilidade à predação, à queima do indivíduo ao se aproximar de fontes de luz incandescentes ou até mesmo a morte por exaustão. Além das interferências em seu comportamento, quando atraídos para outros habitats fora do seu ambiente natural.


Infelizmente estudos apontam que os lepidópteros são o grupo dos insetos mais afetados por esse problema, principalmente a maioria das mariposas que têm o hábito noturno e espécies de borboletas que possuem hábito crepuscular. Na Europa, por exemplo, já foi constatado declínio populacional de mariposas que são sensíveis às luzes artificiais. Pois além de serem atraídas a essas luzes, frequentemente “esbarrando” nelas e morrendo, também podem afetar a reprodução, o desenvolvimento dos imaturos (como nas lagartas), o período de pupa e indiretamente até através das plantas hospedeiras e predadores.


Com isso, é necessário nos atentarmos aos impactos gerados por nós a todos os seres que habitam o Planeta, já que também fazemos parte do todo. Dessa maneira, reduzir a utilização de tanta luz artificial é fundamental para a manutenção da vida desses insetos que desempenham papéis de grande relevância em todos os ecossistemas.


Assim, todos ganham: nós e toda a natureza!


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¹Forrageamento: Ato de buscar e/ou explorar recursos alimentares, ou seja, procurar alimento.


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Referências:

FERREIRA, F. O.; SOUZA, T. S. COMPARAÇÃO DO IMPACTO DE DOIS DIFERENTES TIPOS DE ILUMINAÇÃO ARTIFICIAL EM INSETOS NOTURNOS NO MUNICÍPIO DE SÃO ROQUE – SP. 2019. São Roque-SP.


BOYES, D. H.; EVANS, D. M.; FOX, R.; PARSONS, M. S. & POCOCK, M. J. O. IS LIGHT POLLUTION DRIVING MOTH POPULATION DECLINES? A REVIEW OF CAUSAL MECHANISMS ACROSS THE LIFE CYCLE. Insect Conservation and Diversity: 167-187, 2021.


KALINKAT, GREGOR; GRUBISIC, M.; JECHOW, A.; VAN GRUNSVEN, R. H. A.; SCHROER, S. & HOLKER, F. Assessing long-term effects of artificial light at night on insects: whats is missing and how to get there. Insect Conservation and Diversity: 260-270, 2021.


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